CasaCor Paraná 2010

Café

O hábito de tomar café já está incorporado à cultura do brasileiro desde a época do Brasil colônia. Mas, nos últimos anos, houve uma mudança no comportamento do consumidor e na sua relação com a cafeteria. O cafezinho coado, adoçado, consumido rapidamente no balcão se sofisticou, se tornou um programa de lazer. Virou uma pausa para socializar, espairecer, descansar, ler ou refletir.

Para auxiliar nesta fuga da rotina, intencionamos criar uma atmosfera inédita, que surpreendesse os visitantes e os transportasse para uma outra realidade. Um lugar estimulante e, ao mesmo tempo, um convite ao ócio criativo e contemplativo.

(Co)Movidos pelas recentes, constantes e devastadoras catástrofes naturais propusemos  um espaço que despertasse nos passantes a urgência na mudança do seu comportamento. Um câmbio em direção ao consumo responsável dos recursos naturais.

Utilizamos duas imagens metafóricas veiculadas há séculos, mas que tiveram um impacto na conduta social do homem – o céu (paraíso) e o inferno (purgatório). A interpretação artística destes dois mundos antagônicos serviu, entre outras finalidades, para aproximar fiéis dos ideais cristãos ou afastá-los das perdições mundanas. Nos apropriamos destas metáforas para gerar um questionamento, uma reflexão sobre nossas ações.

Inferno é um termo usado por diferentes religiões, mitologias e filosofias, representando a morada dos mortos, ou lugar de grande sofrimento e de condenação. O inferno como arquétipo contemporâneo seria o fruto da depredação do meio ambiente – um lugar inóspito, inabitável.

O corredor de entrada, um espaço vertiginoso, encarna o inferno. Poemas de A Divina Comédia e imagens representando o Inferno de Dante, estampam algumas paredes. O artista Cleverson de Oliveira empresta sua mídia, uma foto desconstruída, fragmentada tridimensionalmente para expressar o caos próximo – um alerta sobre o desequilíbrio ambiental causado pelo homem.

Uma parede de cristal negro mostra trechos da trilogia Qatsi, de Godfrey Reggio. Koyaanisqatsi (vida desequilibrada), Powaqqatsi (vida em transformação) e Naqoyqatsi (a vida como uma guerra) levam sua audiência a refletir sobre os aspectos da vida moderna que nos fazem viver sem harmonia com a natureza, bem como a pressão exercida pelas inovações tecnológicas que tornam o cotidiano cada vez mais rápido.

Separado por negras cortinas, o salão de chá principal é um ofuscante contraste com o espaço anterior. Todo projetado em cores claras e suaves, com móveis confortáveis, este ambiente ensaia o papel do céu ou a utopia do paraíso.

A obra de Anna Mariah Comodos, uma nuvem serpenteando suavemente os 90m2 do forro ajuda a criar a atmosfera onírica do salão. Uma imagem do firmamento, plotado no teto é cercada por 12 sentinelas, os titãs (filhos de Gaya – a Terra – com Céu , divindade romana equivalente à grega Urano).

Poltronas envolvidas em lycra, sendo expelidas das paredes, e cadeiras Louis Ghost, cobertas por voil são uma releitura fantasmagórica de clássicos do design. Cortinas translúcidas com imagens gravadas separam setores do salão com três telas de Virgínia Rojas encabeçando as mesas do lounge.